Histórico! Mangueira reescreve a história do Brasil na Marquês de Sapucaí

Com luxo e grandiosidade Vila Isabel está de volta à briga pelas primeiras posições. Mocidade tem bom desempenho. Tuiuti e Portela fizeram boas apresentações

 

Se a história oficial do Brasil foi escrita com penas mergulhadas em sangue retinto, a Estação Primeira de Mangueira reescreveu parte dessa mesma história com o suor de milhares de mulheres, caboclos, mulatos de um país que não está no retrato. O que aconteceu na Marquês de Sapucaí no fim da madrugada desta terça-feira foi uma das passagens mais bonitas do carnaval carioca em todos os tempos. Uma catarse absoluta que tomou conta de todos que ali estavam. Em uma apresentação simplesmente arrebatadora, a Verde e Rosa deu vida e voz a diversos personagens esquecidos pela versão oficial dos fatos e desponta como a grande favorita na disputa do campeonato. Vila Isabel, com uma apresentação grandiosa, Mocidade Independente com um desfile correto e Portela com a força do povo de Madureira foram os outros destaques da noite que ainda teve belas apresentações de São Clemente, Paraíso do Tuiuti e União da Ilha.

 

SÃO CLEMENTE

Apostando na reedição de um dos seus mais famosos sambas de enredo, a São clemente trouxe para a Avenida uma releitura de “E o samba, sambou” de 1990. Caprichando na irreverência a Preta e Amarela da Zona Sul abriu em grande estilo a segunda noite de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Com soluções criativas, o carnavalesco Jorge Silveira desenvolveu o enredo com uma leitura fácil que agradou todos que assistiram a passagem da escola na Avenida. Mas como nem tudo é alegria, a agremiação teve alguns problemas de evolução e de acabamento em algumas fantasias e alegorias que podem tirar pontos importantes na classificação final.

 

UNIDOS DE VILA ISABEL

Fora da briga pelo título desde que conquistou seu último campeonato em 2013, a Unidos de Vila Isabel mostrou na noite desta segunda-feira que está de volta à disputa pelo primeiro lugar do carnaval do Rio de Janeiro. Imponente, com uma abertura que não se via faz algum tempo nos desfiles, a Azul e Branca deixou o público impressionado com a grandeza de seu carro abre-alas puxado por cavalos cenográficos maiores que qualquer um que tenha passado pela Passarela do Samba até os dias atuais. A suntuosidade do desfile da escola foi tamanha que criou dificuldades até para os fotógrafos que trabalham registrando a festa. Com truques de mágica que. Literalmente, fizeram desaparecer um de seus integrantes no meio da Avenida, a comissão de frente, comandada por Patrick Carvalho, foi outro dos pontos altos do desfile. As ressalvas ficaram por conta de alguns componentes que passaram mal por causa do calor dentro do pesado conjunto de fantasias criado pelo carnavalesco Edson Pereira, pelo fraco samba de enredo que atrapalhou a harmonia do valente povo de do bairro de Noel e por alguns deslizes na evolução truncada por causa da grandiosidade. Mesmo com esses percalços a Vila Isabel pode voltar a sonhar com o título da elite do carnaval carioca.

 

PORTELA

A Portela foi buscar o canto de um de seus maiores símbolos, a “sabiá” Clara Nunes, para alçar um voo certeiro para estampar a vigésima terceira estrela em seu pavilhão. Sob o embalo do intérprete Gilsinho, os componentes da escola pareceram sentir a presença da homenageada e fizeram um desfile bastante forte tecnicamente. Os pontos fracos foram justamente os quesitos de maior responsabilidade da carnavalesca Rosa Magalhães. O conjunto de alegorias e fantasias, muitas vezes se mostrou indecifrável, além de mal acabado. O enredo que misturava uma homenagem à Clara Nunes com uma Madureira modernista mostrou na Avenida exatamente a impressão que dava quando se lia a sinopse, ou seja, uma salada desnecessária em uma mistura que deu a impressão de que apenas a vida de Clara Nunes não daria para realizar um desfile de Grupo Especial nos moldes que acontecem atualmente.

 

UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR

Um desfile correto. Assim foi a passagem da União da Ilha do Governador no carnaval de 2019. Mais uma escola que, como a Vila Isabel, sofreu com um samba de enredo que parece não ter conquistado seus componentes. O conjunto alegórico e de fantasias adequado ao enredo, sobre a cultura do estado do Ceará, deixou um pouco a desejar na execução, especialmente das fantasias, e na linha de desenvolvimento adotada pelo carnavalesco Severo Luzardo. Sem maiores problemas de evolução a escola passou pela Avenida sem sacudir o público, mas acima de outras concorrentes que deixaram muito a desejar na primeira noite de desfiles.  

 

PARAÍSO DO TUIUTI

Depois do vice-campeonato de 2018, a Paraíso do Tuiuti mostrou para todo mundo que seu bode tem cabelo na venta. A escola, que desfila pelo terceiro ano seguido na elite do carnaval do Rio de Janeiro, fazia uma das melhores apresentações da noite até o momento que teve problemas com uma de suas alegorias, o que comprometeu muito a evolução da escola, além do próprio carro. Um grande buraco se formou em frente ao primeiro módulo e deve prejudicar bastante a avaliação da apresentação. Não fosse isso, mais uma vez a Azul e Amarela estaria brigando pelas primeiras posições na quarta-feira de cinzas. O politizado enredo desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos se mostrou, em alguns setores, de difícil entendimento. Porém, o samba de enredo teve um rendimento excepcional e conduziu o desfile de maneira leve, deixando o componente da escola leve para brincar o carnaval.

 

ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA

O desfile proposto pelo carnavalesco Leandro Vieira desconstruiu aquilo que todos aprendemos desde crianças nas salas de aula. Depois de assistir a passagem da Mangueira percebemos que não sabemos nada do que aconteceu em nosso país e que a história do nosso povo é muito mais profunda do que aquela que aprendemos. A escola do povo tirou a poeira dos porões, não os da ditadura, mas os porões do nosso conhecimento tão limitado pela acomodação cotidiana. Como se não bastasse, o desfile foi tecnicamente perfeito.  O casal de mestre sala e porta bandeira, Matheus e Squell, fez apresentações impecáveis durante toda a apresentação. Na comissão de frente personagens históricos emoldurados em outrora eram substituídos pelos verdadeiros heróis da história de nosso país. No fim da apresentação surgia a jovem atriz Cacá Nascimento representando a vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018. O genocídio indígena praticado pelos Bandeirantes, a ditadura assassina que muitos desconhecem e sentem saudades, as marcas de sangue nos monumentos turísticos espalhados pelo país, tudo estava ali. No fim do desfile uma enorme bandeira do Brasil foi estendida na Avenida. Porém, ao invés de verde, amarelo e a frase “ordem e progresso”, o que se viu foi rosa, verde e os dizeres “índios, brancos e negros”. Simplesmente emocionante!

 

MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL

Com a difícil missão de se apresentar logo após o arrebatador desfile da Mangueira, a Mocidade Independente de Padre Miguel mostrou que os momentos ruins das últimas décadas, ano a ano vão ficando para trás. A Verde e Branca da zona oeste se mostrou muito segura e passou bem pela Marquês de Sapucaí. Sob o embalo de Wander Pires e da bateria “Não Existe Mais Quente”, que deu um verdadeiro show de ritmo e cadência, os componentes da escola brincaram o carnaval e evoluíram sem sobressaltos, passando tranquilamente pela Avenida. O samba de enredo rendeu menos do que o esperado, mas isso não atrapalhou em nada o canto da apaixonada comunidade Independente. Na parte plástica a apresentação começou muito bem, os primeiros setores da escola estavam bonitos, bem desenvolvidos e muito bem acabados. Porém, na metade final ficou claro que a escola estava sem dinheiro para terminar o carnaval. A última alegoria destoou muito das duas primeiras e deve tirar alguns pontos importantes da agremiação que deve brigar para voltar no desfile das campeãs.

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